Quinta-feira, 5 de Abril de 2007

apenas calma...

Mais uma daquelas tardes, onde me sinto vazio,
Bate o frio, Sai-o à rua para ver o rio,
Continua verde como sempre, não devia ser azul?
Da cor do céu? Esse que hoje está cinzento?
Não devia ser azul? Que se lixe o pensamento,
Das ruelas estreitas perco-me e dou de caras com outro mundo,
Uma loja com a porta entreaberta mostra-me um fundo,
Azul, com a mensagem “aqui vendem-se almas”,
Finalmente algo para mudar as minhas palmas,
E com elas toda a minha linha da vida, da sorte, da morte,
“Boa noite, eu quero uma alma, uma alma nova”,
O velho olhava e dizia para eu ir com calma, que precisava de calma,
Que era melhor não mudar já, levar uma para prova,
“Eu lá quero experimentar, eu quero uma alma nova”
Procura por aí disse o velho barbudo,
“Mas por favor…tem cuidado miúdo”
Lá do fundo uma figura estranha, com quatro mãos,
Dizia que era filho único e tinha seis irmãos,
Fazia chaves por medida, para tesouros escondidos,
Arranjava céus e mares e estendia dedos encolhidos,
“Tens uma alma nova por aí? Tu que tens tantas mãos”
Respondeu-me que não, mas que tinha seis irmãos,
Caminhei por ali a dentro, vislumbro outra aberração,
Uma silhueta de mulher, quatro pernas, e um buraco no coração,
“Bem isso foi fundo, não tens por aí uma alma nova?”
Disse que só fazia bolos e derivados, da panela arrancou e disse…”Prova”,
Heish, “Horrível”, sabia a ferro concentrado, com plástico encorpado,
“Bem precisas de uma alma nova, o teu paladar está desorientado”
Corri, por túneis passei, em areias me movi, até que me perdi,
Numa escada mais escura, uma miúda vestida de rosa olhava pra mim,
“Que foi? Nunca viste? Com tanta aberração, que fazes aqui?”
Observo, dizia, toda a noite, todo o dia, observo dizia,
“Quem te pintou aqui? Neste reino meio treva meio fantasia?”
Tu…dizia, a meio da noite, a meio do dia, apenas tu dizia…
Voltei a encontrar-me, voltando ao cubículo original,
Lá estava o velho a olhar para mim com seu ar marginal,
“Olha lá eu aqui sou cliente, eu tenho a razão, dá-me uma alma nova”
Tudo bem, dizia, toma lá esta para prova…
Assim foi, do frasco tomei até à ultima gota,
A garrafa parecia estar rota,
Desapareceu num instante, o olhar brilhou como diamante,
Cá estás tu, céu azul, doces caminhos vejo agora,
Não está na hora de ir embora, porque sinto uma estranha calma em mim,
Observo por fim,
Que nenhuma nuvem dura para sempre, vejo-as mover,
Nenhuma dor floresce para sempre, vejo-as morrer,
Sinto uma estranha calma em mim,
Vejo o rio subir, sinto o rio desces, a cidade ilumina-se na cegueira,
Vejo putos na brincadeira, sorriu para eles,
Há uma estranha calma em mim, e nesta nova alma,
Abro a mala,
A tal garrafa salvadora, regeneradora, a tal nova alma,
Em letras pequenas o seu título “Apenas Calma”.

publicado por JF às 01:19
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